19 de out. de 2004

Honra ao demérito

Ex-prefeito bem apreciado no exercício do cargo, Raul Pont abre o jogo: é a decepção com o governo Lula, por parte do eleitorado, que explica a sua dificuldade de confirmar, agora, o favoritismo lógico e demonstrado no primeiro turno pela Prefeitura de Porto Alegre. Algum petista chegaria, inevitavelmente, à sinceridade de expor em público o ponto de vista de muitos, inclusive ou sobretudo em São Paulo.
Os nove pontos de vantagem com que Raul Pont bateu José Fogaça, ex-PMDB e neófito do PPS, transformam-se em 12 pontos de desvantagem. Justifica-se a estranheza de Pont com a surpreendente (segundo Fogaça, também) rapidez de virada tão grande, na pesquisa Ibope. Pont observa, porém, que aparece com percentual que corresponde à sua votação no primeiro turno. Assim sendo, os números de Pont e suas observações se confirmam e completam:
"Não dá para negar que havia expectativa e esperança de soluções mais rápidas do governo para os problemas do país. Isso é o que as ruas estão dizendo." Ou seja, a decepção com o governo Lula reduz o eleitorado de Pont ao petismo incondicionalmente fiel, e lhe nega as condições, nem se diga para colheitas invasoras, mas para preservar o seu apoio eleitoral passado.
Se estudados com menos superficialidade do que até agora, os resultados eleitorais ainda acabam levando ao reconhecimento de que Antonio Palocci foi a grande figura nas eleições pelo país afora. A surra levada pelo PT no Rio -na cidade e no Estado- a ele é devida em grande parte: quando menos, por ser surra, e que surra, onde Lula obteve igualados 80% dos votos. É provável que em pouco se declarem muitos outros candidatos e lugares que justificam um busto de Palocci erguido pela oposição.

Jânio de Freitas, Folha de São Paulo, 19/10/2004

O comportamento de avestruz não é exclusividade petista. Os crentes de todas as religiões usam tapa-olho. Alguém já viu alguém da Igreja Universal deixar de ser crente por que seu pastor mostrou-se pedófilo?!

O justo-meio no meio injusto

O grego Eubulo (375 a.C.) estabeleceu algumas regras, etiqueta, a respeito do vinho.
"Três taças preparo para os comedidos: uma para a saúde, a segunda para o amor e o prazer, a terceira para o sono. Depois de tomar a última taça, os convidados prudentes vão para casa. A quarta taça não é nossa, pertence à violência; a quinta ao tumulto; a sexta, à folia; a sétima, aos olhos roxos; a oitava, ao policial; a nona, à bilis; a décima, à loucura."
Também na política os gregos buscaram a moderação, pois os deuses puniam a desmedida. Os romanos também procuraram não concentrar poderes. E quem ousou, como Júlio César, foi punido.
Observando os governantes da américa latina eleitos nas últimas duas décadas, também pode-se afirmar:
O primeiro mandato pertence ao povo, o segundo, aos usurpadores.
A reeleição é recurso espúrio. Os resultados têm mostrado isso. A moderação é a razão de ser das democracias.

17 de out. de 2004

Uma Pont longe da capital

1) Por que o PT mente, como fez Lula na escala Federal, que é demente. Deixou de ser um partido confiável ao povo, para se tornar capacho do polvo... ou Lula. Não conseguem dar segurança aos brasileiros mas se arvoram dfensores do povo do Haiti. O Haiti é aqui, já dizia Caetano Veloso. Mas Lula só ouve Zezé di Camargo e Luciano...
2) Por que somente pessoas modificadas eticamente poderiam liberar o plantio de soja geneticamente modificada.
3) Por que Raul Pont desconhece que José Fogaça é da base aliada de seu partido, tendo Ciro Gomes como representante na ante-sala do PesTismo federal.
4) Por que José Fogaça nos fez nada no Senado. Se tivesse feito tanta bobabem quanto Lula et caeterva, ainda assim se igualaria ao PT.
5) O resultado da greve dos bancários da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil são um retrado pronto e acabado do "new PT". A classe mais explorada pelo setor mais lucrativo foi jogada aos leões pelo partido que se diz dos trabalhadores.Os oPorTunistas preferiram os banqueiros aos bancários. E a Reforma da CLT ao estilo petista, que prevê a livre negociação, já vem com a experiência da "livre negociação" dos bancários com os banqueiros... Se uma categoria forte e organizada como a dos bancários não levaram nada, imagine-se outras menos estruturadas.
6) Por que, em termos de ética, depois do jantar de Lula com Roberto Jefferson (o verdadeiro FOME ZERO), presidente do PTB, e mascote da "tropa de choque" do Governo Collor, o PT está desautorizado a criticar o comportamento de quem quer que seja. Não bastasse isso, Marta Suplicy e José Genoíno se lançaram nos braços de Paulo Salim Maluf, que dispensa apresentações. Ah! O PTB também está no governo Lula, no Ministério do Turismo...
7) Quem perseguiu aposentado e servidor público como fez o Governo Lula, igual ao caçador de marajás das Alagoas, não pode cobrar honestidade de quem quer que seja para ser um bom prefeito. O PT na oposição não permitiu tamanha desfaçatez.
8) Lula, tal qual Fogaça, também nunca havia ocupado um cargo no Executivo antes. Aliás, sequer trabalhava.
9) Por que o PT faz a crítica fácil, apontando no adversário os mesmos males de que padece, abusando da capacidade dos eleitores de perceberem o engôdo.
10) Por que a alternância no poder é da essência da democracia. E a derrota do PT será uma vitória contra o político vira-casaca, deslumbrado com a transitoriedade do poder, o messianismo inconseqüente, que renega as bandeiras e os que as desfrandavam, tentando nos convencer com discurso boçal.

15 de out. de 2004

O combustível do Pont

Marilena Chaui, na revista CULT, falando da Rede Globo: "Essa eu não vejo porque me encergonho. Nem o Diário Oficial da União nem os jornais do PT são tão governistas quanto a Globo."
Nos tempos de Delfim Neto, sempre que acontecia alguma notícia para os militares, lá vinha o indefectível, na Rede Globo, anunciar a descoberta de mais um lençol de petróleo na Bacia de Campos. A hipocrisia era tanta que o Millôr se perguntava pelas conseqüências. Afinal, o problema já não era mais petróleo mas quem fabricaria tantos barris para armazenar tanto petróleo?
Como no soneto do Camões, mudam os tempos, mudam-se as vontades, mas já não se muda com soía. A Petrobras continua aumentando a produção, a ponto de o governo declarar que até o final do ano seríamos auto suficientes. Vejo, inclusive, que o dólar caiu. Isto é, o real valorizou-se frente ao dólar.
Mas eis senão quando vem o governo e anuncia aumento dos combustíveis! Teria ele intenção de usar este dinheiro para financiar o segundo turno da banda petista?
Sei não, mas desse jeito nem a Globo salva o Raul. Até um poste ganha do Pont.

13 de out. de 2004

No acostamento

O PT sempre lutou para chegar lá. Desde sua origem montou uma estratégia, e nisso ele não está sozinho, visando chegar ao poder central. Todos os passos eram dados no sentido de aplainar o caminho para o Planalto. Este mesmo caminho trilhou o PSDB.
Lula, obcecado pela idéia de ser chefe supremo do executivo, menosprezou qualquer outro degrau na hierarquia política. Pelo menos FHC galgou degrau a degrau. Ambos chegaram lá, e, uma vez lá, ambos passaram a sonhar com a visibilidade externa. O que prova que a ambição pessoal não tem limites. É da nossa natureza queremos ascender sempre e cada vez mais alto, não é mesmo?! Que o diga Ícaro!
Ambos, Lula e FHC, têm em comum um alheamento da realidade, uma espécie de autismo político que afeta principalmente os deslumbrados com a transitoriedade do poder. FHC foi-se, Lula irá!
Preocupados em mostrarem boa educação, pensando serem bem aceitos no banquete dos grandes mandatários, dão prioridade ao bom-mocismo externo. Dívida é dívida, diz o banqueiro, tem de pagar! E assim vem sendo feito. E por isso, para figurarem entre as "nações civilizadas", é que a dívida externa vem sendo a única a merecer a atenção.
E como fica a dívida social? Veja-se o caso das estradas brasileiras. O máximo que merecemos é uma operação tapa buraco! Só no RS foram 26 mortes neste feriadão. E aí os juízos apressados correm a culparem os motoristas. Poucas e péssimas estradas, com tráfego intenso e mal sinalizadas as causas das mortes são. Ora, basta ultrapassar a fronteira para se ter certeza que a grande causa das mortes não é a velocidade. Na Argentina, por exemplo, o limite de velocidade é bem superior ao nosso. Mas as estradas são mais largas e melhor conservadas. No Brasil, a insensibilidade deste e dos governos anteriores manda jogar a culpa da tragédia às próprias vítimas.
"Campanha de conscientização" é desvio, atalho para jogar dinheiro no caminho da mídia!
E por esse caminho de insensibilidade que Lula está pondo o PT no acostamento. Marta Suplicy em São Paulo e Raul Pont em Porto Alegre tiveram suas administrações bem avaliadas pela população. No entanto, estão sendo rejeitados nas urnas. A população, nestes dois casos, mesmo sem saber, está seguindo uma velha máxima marxista: "Pensar globalmente e agir localmente." Pensam no governo Lula e agem no município. O desastre federal é vivenciado no município! Assim como se reclama ao bancário, e não ao banqueiro, a conta do petismo federal está sendo espetada nas costas dos candidatos a prefeito.
Subalternos obedientes, Marta Suplicy e Raul Pont têm se prostrado em direção a Lula, virando a bunda para o povo. Agora, na corrida municipal, o pontapé virá!

11 de out. de 2004

Excelentíssimo Crustáceo

Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil.

Venho por meio desta comunicação manifestar meu total apoio ao seu esforço de modernização do nosso país. Como cidadão comum, não tenho muito mais a oferecer além do meu trabalho, mas já que o tema da moda é Reforma Tributária, percebi que posso definitivamente contribuir mais.

Vou explicar: Na atual legislação, pago na fonte 27,5% do meu salário. Como pode ver, sou um brasileiro afortunado. Sou obrigado a concordar que é pouco dinheiro para o governo fazer tudo aquilo que promete ao cidadão em tempo de campanha eleitoral. Mesmo juntando ao valor pago por dezenas de milhões de assalariados! Minha sugestão, é invertermos os percentuais.

A partir do próximo mês autorizo o Governo a ficar com 72,5% do meu salário. Portanto, eu receberia mensalmente apenas 27,5% do resultado do meu trabalho mensal.

Funcionaria assim: Eu fico com 27,5%
limpinhos, sem qualquer ônus. O Governo fica com 72,5% e leva as contas de:

Escola,
Convênio médico,
Despesas com dentista,
Remédios,
Materiais escolares,
Condomínio,
Impostos municipais, estaduais e federais,
Água, luz, telefone e energia,
Supermercado,
Gasolina,
Vestuário,
Lazer,
Pedágios,
Cultura,
CPMF,
IPVA,
IPTU,
ISS,
ICMS,
Segurança,
Previdência privada e qualquer taxa extra que por ventura seja repentinamente criada por qualquer dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Um abraço Sr. Presidente e muito boa sorte, do fundo do meu coração!


PS: Podemos até negociar o percentual !!!

Agora vejam só o FOME ZERO do Congresso Nacional presidido pelo Petista João Paulo:
Salário:.......................................R$ 12mil;
Auxílio-moradia.........................................R$ 3 mil;
Verba para despesas "comprovadas"..........R$ 7mil;
Verba para assessores..........................R$ 3,8 mil;
Para 'trabalharem' no recesso.................R$ 25,4 mil;
Verba de gabinete mensal......................R$ 35 mil;
Transporte: Passagens aéreas de ida e volta a Brasília/mês;
Direito a "contratar" 20 servidores para seu gabinete;
13º e 14º salários, no fim e no início de cada ano legislativo;
E 90 dias de férias anuais e folga remunerada de 30 dias.

ISSO PARA CADA UM DOS 503 DEPUTADOS!!!

Vale a pena ver de novo

Alguns filmes deixam cenas que se perpetuam na mente. São como flash intermitentes. Girassóis da Rússia, Salvatore Giuliano de Francesco Rossi são dois filmes que freqüentam minha memória. Agora um outro fantasma tem me acompanhado. Trata-se de um filme de Elia Kazan, recentemente falecido: Terra de um sonho distante. Enquanto à vida política se esvai pelo esgoto da mercancia, nada melhor que viajar pela memória. Alimentar o espírito ou desviar o foco é a dica da sobrevivência. Esperança há, o difícil é se livrar dos fantasmas.

10 de out. de 2004

ProcusTe

Para entender o "new PT" só recorrendo a lendas. Diz-se que Procuste era um bandido que tinha na cama a medida para todas as coisas. Assim, se a vítima era menor, espichava. Quando maior, cortava deixando-a do tamanho da cama.
O PT acusa José Fogaça de se apropriar das boas idéias da administração popular, sem se dar conta que Lula faz o mesmo com as "boas idéias" dos tucanos. Até aí, cara de pau por cara de pau, todos são devotos de Lalau! Agora recebo montagem de Fogaça com Zambiasi, secundados pela elegante legenda: Falcatroika. Não seriam eles, da Falcatróika, os principais aliados de Lula?
Quando estourou o esquemão Waldomiro Diniz x José Dirceu, fui a Brasília a trabalho. No mesmo avião estava o presidente estadual do PT, David Stival. Ia se reunir com o partido para debater o afaire Waldomiro mas também "conversar" com Zambiasi para tratar da coligação com Raul Pont. Afinal, o PTB de Roberto Jefferson (o mesmo da tropa do "cheque" de Collor, é fiel aliado de Lula. E Fogaça? É correligionário do Ciro Gomes, Ministro e escudeiro de Lula. Enquanto o PT de Lula ostenta um "T" de traidor, o PPS de Fogaça tem um S de sacana. Mas estão no mesmo barco!
O PT ironiza Fogaça com a alcunha de Conselheiro Acácio, aquele personagem criado por Eça de Queiróz que só dizia o óbvio, por dizer que vai manter as boas obras do administração popular, como o Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial. E quem pode duvidar que manterá? Não esqueçam! Lula se elegeu prometendo mudança mas manteve tudo o que existia de pior de seu antecessor, inclusive aprofundando as desigualdades. Com exceções, claro, dos banqueiros e fazendeiros dos transgênicos, sempre e cada vez mais felizes.
A boçalidade das lideranças petistas, montadas na transitoriedade do governo Lula, abusam da liberdade de ofender nossa inteligência. Que o diga a liberação dos transgênicos ou a perseguição dos aposentados. Tudo feito na maior arrogância do senso de impunidade. Lula não roubou somente as bandeiras do governo Éfe Agá. Padecendo da Síndrome de Estocolmo, também adotou as idéias de seu carrasco Fernando Collor de Mello. Agora caça marajás e transforma o Palácio na sua "Casa da Dinda" (Levando a cadela Michelle em carro oficial, fazendo churrasqueiras e jardins em formato de estrela no Planalto, sem contar o novo avião).
A derrota do Raul Pont é uma punição aos ProcusTes do PT!
Ninguém engana todo mundo todo o tempo. O "new PT" deveria saber.

26 de set. de 2004

PesTismo na Berlinda

Normalmente, tiro férias nesta época do ano. É baixa temporada turística e coincide também com a baixa temporada dos meus afazeres. Se viajo, tudo fica mais barato. E, para meu gosto, menos cheio, sem filas. Essas coisas. Quando coincidia com eleições, reservava parte das férias para atuar politicamente, ajudando endeusar o PT.
Neste ano, graças ao desbunde do Governo Lula, que transformou os petistas em boçais por este país afora, também tirei férias da política.
Depois de 20 dias fora, retorno com a informação que o PT comprou, no atacado, todo o PTB. Pelo tamanho da empreitada, o Waldomiro Diniz e o Danúbio Gonçalves devem ter enchido as burras. O PT pensa grande. Enquanto o PSDB comprava a granel, o PesTismo Federal vai às mancheias. E agora que o deus Lula não existe, então tudo é permitido. Vamos nos locupletar.
O PONT talvez não mereça, mas, nas atuais circunstâncias que o PT nos embretou, sinto certa simpatia pela fisionomia siciliana do Onyx Lorenzoni...
PT NUNCA MAIS!

24 de set. de 2004

Quem dá mais?

FÁBIO KONDER COMPARATO - Folha de São Paulo, 24/09/2004

São conhecidos os casos, felizmente raros, de casais sem filhos nos quais o marido complacente aceita que a mulher tenha relações sexuais com outro homem a fim de gerar uma criança, que é registrada em nome do casal como se seu filho fosse.Apesar de ser este, como diz José Simão, o país da piada pronta, e ainda que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados tenha acabado de aprovar a descriminalização do adultério, certamente não ocorreria a ninguém propor a legalização desse tipo de relação sexual, para dispor, ainda por cima, que o filho assim eventualmente gerado seja entregue de direito ao genitor masculino. Algo de análogo, porém, tem ocorrido neste país desde 1997, num campo certamente muito menos nobre do que a geração de um ser humano, mas nem por isso menos vital para o país: a exploração do petróleo.A Constituição da República, em seu art. 177, determina que constituem monopólio da União: "I . a pesquisa e a lavra das jazidas de petróleo e gás natural e outros hidrocarbonetos fluidos; II . a refinação do petróleo nacional e estrangeiro; III . a importação e a exportação dos produtos e derivados básicos resultantes das atividades nos incisos anteriores". Mas a lei nº 9.478, de 1997, promulgada no quadro da privataria desencadeada pelo governo Fernando Henrique, veio permitir que a União leiloe entre empresas privadas, até mesmo estrangeiras, áreas de pesquisa e lavra de petróleo, determinando que a vencedora da licitação torna-se proprietária do produto assim extraído, podendo inclusive exportá-lo.
Poder não se abandona nem se vende. O petróleo, na verdade, não pertence à União. Pertence à nação brasileira
Está em curso no Supremo Tribunal Federal uma ação direta de inconstitucionalidade desse aleijão legal, proposta pelo governador Roberto Requião, do Paraná. Na primeira sessão de julgamento, o procurador-geral da República levantou, para reflexão dos julgadores, a hipótese de que o legislador, sem ferir a Constituição, teria querido limitar os efeitos do monopólio estatal à atividade de pesquisa e lavra do petróleo, sem estendê-lo ao produto resultante dessa atividade.A cogitação de Sua Excelência, lamento dizê-lo, é inteiramente descabida.Em primeiro lugar, como é óbvio, o que se espera e o que se exige do mais alto tribunal da República, no caso, é que ele julgue a lei à luz da Constituição, e não em função do que os parlamentares teriam pensado ou imaginado no momento em que a votaram.Em segundo lugar, não se cuida, no caso, de uma atividade de serviço, mas sim de uma indústria extrativa. Nesta, excluir o produto final do monopólio é esvaziá-lo totalmente de sentido.Em terceiro lugar, monopólio não se confunde com autorização administrativa para exercício de atividade econômica. À União Federal, por exemplo, compete autorizar o funcionamento de instituições financeiras no país. Mas nunca, que se saiba, para alívio da Febraban, nem mesmo no meio mais furiosamente estatizante do país, ninguém ousou interpretar essa competência federal como modalidade de exercício de um monopólio.É exatamente por isso que o parágrafo 1º do art. 177 da Constituição, introduzido pela emenda constitucional nº 9, de 1995, determina que a União "poderá contratar" a realização das atividades de pesquisa e lavra de petróleo, gás natural e outros hidrocarbonetos fluidos. As empresas contratadas devem agir em nome e por conta da União, sendo pagas pelos serviços prestados. Mais nada. Elas não podem assumir o risco do negócio, que definitivamente não é delas. Introduzir o contrato de risco num regime de monopólio representa uma contradição insolúvel. Se se tratasse, ao contrário, de simples autorização administrativa de exercício de atividades, a União não contrataria empresa nenhuma para fazer o serviço: cada qual, de acordo com o princípio da livre iniciativa, atuaria por conta própria, quando muito sob a fiscalização do poder autorizador.Mas não é só isso. Uma Constituição não é reunião desordenada de normas, mas um todo orgânico, que obedece a um "espírito", como disse Montesquieu. Esse "espírito" do sistema é dado pelos seus princípios fundamentais. Dentre estes, deve-se ressaltar o da soberania nacional, enunciado logo no art. 1º e repetido no art. 178, no título consagrado à ordem econômica e financeira.Ora, a disponibilidade de petróleo é hoje, como ninguém ignora, questão altamente estratégica, pois a disputa pelo acesso a essa fonte de energia, cuja escassez começará a se fazer sentir dentro de poucas décadas, acha-se no centro de uma verdadeira conflagração mundial, gerando guerras e golpes de Estado em várias partes do globo. Ao disputarem o acesso a essa fonte de poder, quando localizada em território estrangeiro, as grandes potências não hesitam em lançar mão de todos os meios, do suborno de chefes de Estado à invasão armada.É nessa perspectiva global que deve ser interpretado o monopólio instituído pela Constituição nessa matéria. Soberania é poder. E poder não se abandona nem se vende. O petróleo, na verdade, não pertence à União. Pertence à nação brasileira. Seria um escárnio que as autoridades federais, a quem compete primariamente a defesa da nossa soberania, tivessem, por razões rasteiramente financeiras, a licença de leiloar o patrimônio da nação.
Fábio Konder Comparato, 67, advogado, doutor pela Universidade de Paris, é professor titular da Faculdade de Direito da USP e doutor honoris causa da Universidade de Coimbra.

23 de set. de 2004

Disfunção social

Um dos engodos mais responsáveis pela gravidade dos problemas sociais brasileiros tem o nome de "função social da empresa" ou, na variante que enche igualmente as falas de certo tipo de empresário, "função social do capital".Nas suas boas intenções, que não enchem o inferno mas enchem o Brasil de engodos, diz a Constituição no capítulo quase humorístico dos "Princípios Gerais da Atividade Econômica": "Art.170 - A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na iniciativa privada, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) II-propriedade privada; III-função social da propriedade", e assim vai.Ou antes, não vai. A função social da empresa ou do capital só pode começar pela remuneração posta e mantida no limite do econômica e financeiramente possível. É o primeiro passo para a "valorização do trabalho humano", único modo de, como resultado final, "assegurar a todos existência digna", também chamada de "justiça social".Os bancários estão fazendo, em 24 Estados, a maior greve dos últimos 15 anos. Nestes 15 anos, os lucros dos bancos fizeram o mesmo que já faziam por décadas: tornaram-se escandalosamente maiores ano a ano. Os lucros de bancos no Brasil não têm nada parecido no mundo todo. Por várias vezes, grandes bancos dos Estados Unidos, como o Citicorp e o Boston, têm feito a expressividade dos seus lucros finais com o lucro que realizam no Brasil. (Foi por esse caminho que Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, colheu o prêmio de presidir o Boston nos Estados Unidos, até receber o prêmio dado por Lula para vir cuidar, aqui, dos juros que garantem altos lucros aos bancos em atividade no Brasil).Os bancos brasileiros fazem os maiores lucros bancários do planeta, mas não têm competidor também em outro aspecto: pagam aqui os piores salários relativamente aos lucros. Não lhes basta a usura: praticam também a avareza.Afora os bancos e similares, a Petrobras lidera as 500 empresas mais lucrativas: seu lucro representa quase um terço dos lucros de todas as 500. É um caso eloqüente: o bom resultado repassa-se aos acionistas, enche a caixa de impostos do governo, mas quem o produz não recebe a compensação proporcional. Os funcionários da Petrobras estão na iminência de outra greve daquelas, para reposição e algum aumento real. Mais do que direito, têm razão de fazê-la. O seu trabalho é valiosíssimo para o Brasil. Porque não é o petróleo que está fazendo a quase auto-suficiência petrolífera brasileira, nem o lucro da Petrobras: é quem faz o petróleo vir das profundezas até transformar-se em riqueza nacional e em lucro empresarial.De repente, o leitor/espectador teve conhecimento de que o funcionalismo do Judiciário paulista está em greve há três meses. Com o acúmulo de 12 milhões de ações paralisadas, o presidente do Superior Tribunal de Justiça ameaçou intervenção em São Paulo. Mas ninguém permanece em greve por três meses se essa greve não provier de necessidade real e de forte sentimento de injustiça. O polêmico fundamento legal da intervenção, mesmo que dissolvido na teoria, não seria solução.Nos bancos, na Petrobras, no Judiciário paulista, nas demais áreas atingidas por greves ou sob risco de sê-lo, a solução é o honesto reconhecimento de perdas impostas aos salários e vencimentos nos últimos dez anos. As que não podem ser repostas de uma vez, por certo podem ser remediadas (o governador Alckmim não lançou nesta semana um pacotaço de redução de impostos, em evidente demonstração das boas condições do Tesouro paulista?).Nestes dez anos de plano real e doutrina econômica ditada pelo FMI, a parcela correspondente à remuneração do trabalho decresceu, na renda nacional, quase dez pontos percentuais, como disse ontem o competente Márcio Pochmann. Não se trata, portanto, de pretender a "função social da empresa ou do capital". No Brasil, coisas assim sempre foram dados como subservidas. E aqui o seriam, mesmo. Trata-se de algo modesto que o governo de um ex-operário pode estimular sem problema - isso, é claro, com a ressalva de que tudo depende de até onde foi ou vai sua conversão.

Janio de Freitas - Folha de São Paulo, 23/09/2004

2 de set. de 2004

Deu buzuqui

Na onda das Olimpíadas, os lulistas vão receber os atletas como faziam seus antecessores, de Geisel a FHC. Portanto, nada de novo, tudo de velho. A inovação fica por conta dos talheres. A Revista VEJA deu o cardápio: "Segundo o Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal), estão sendo comprados pela Presidência 1.016 (mil e dezesseis) xícaras de café, 200 taças para vinho, 100 copos para uísque, 100 para champanhe, 960 pratos de sobremesa, entre muitos itens de mesa."
Faz sentido. Afinal, quem não sabe que nas festas gregas eles terminam quebrando os pratos. Como Lula e seus petistas desvairados já haviam quebraram os pratos com o povo, tiveram de refazer o estoque. Enquanto eles fazem bacanais ao som do Buzuqui, o povo anda só de Zorba, vivendo com um salário platônico.
Por isso que nestas eleições, eles precisarão de $oma$ hercúleas. E, se vencerem, nos darão presente de grego!