03/01/2011

Boi Gordo

Tenho para mim que a maior façanha do gaúcho Paulo Brossard na política foi, quando Ministro de José Sarney, ter procurado boi gordo no pasto. Vivíamos de boicote e racionamento. Paulo Brossard era o Xerife, cavalgado por Sarney. Até hoje o fantasma do boi gordo faz Brossard dar bom dia a cavalo.

A lembrança não vem por méritos do Brossard, que a meu juízo não passa de despeitado capataz de estância, mas na primorosa análise que fez do episódio o saudoso Paulo Leminski. Escreveu o poeta: “Se a gente está valorizando tanto isso aí, é porque está faltando. Hoje, você fala em boi de um jeito que não se falava há três meses atrás, porque o boi está faltando, não porque esteja sobrando, de um modo geral, dentro do quadro brasileiro.” (do livro Os Sentidos da Paixão).

A análise do Samurai Polonês vem a mente quando leio as manifestações de Tarso Genro e da Secretária de Comunicação Social da Presidente Dilma, Helena Chagas. Ambos, por coincidência ou não, falam da importância da Liberdade de Imprensa. O Tarso desce às raias do ridículo quando declara seu incentivo ao papel fiscalizador da imprensa. São manifestações cínicas (Diógenes deve estar rolando de rir em seu tonel) ou, se sérias, velhas do século passado. Primeiro porque a imprensa não foi fiscal de porra nenhuma. Alguém aí poderia me dizer como foi a fiscalização da imprensa durante a ditadura? Como a RBS fiscalizou os governos de seus ex-funcionários, Antônio Britto e Yeda Crusius? Tudo o que a RBS fez foi perseguir Olívio Dutra. Aliás, Tarso fez o mesmo.

Reputo a declaração de ambos de um puxa-saquismo extemporâneo, de quem não aprendeu nada com o processo eleitoral. Helena Chagas deve lembrar como foi que Rede Globo fiscalizou a bolinha de papel na cabeça do Serra. Já, no quesito Liberdade de Imprensa, não vamos esquecer que a Folha de São Paulo move um processo contra uma simples paródia, a Falha de São Paulo.

Nos últimos oito anos a chamada grande imprensa perseguiu Lula incessantemente. As capas da Veja, num futuro não muito distante, serão leiloadas como exemplo do jornalismo abjeto desta primeira década do século XXI. E não há um único fato em que Lula tenha limitado o exercício da liberdade de imprensa. O Instituto Millenium é o verdadeiro resultado do conceito de liberdade de imprensa que o PIG conhece.

Aproveito o início das duas gestões para fazer este alerta, quando a velha mídia ainda está em lua de mel com os novos mandatários. Em breve eles voltarão suas baterias contra os governos Tarso e Dilma, acusando-os de autoritários, de antidemocráticos, de se aliarem a ditadores e contrários a liberdade de imprensa. E isso mesmo que não venham a tomar qualquer medida restritiva aos usos e costumes da facção do Instituto Millenium. Por que é da natureza deles, como na fábula da Rã e do Escorpião, porque seus financiadores ideológicos assim os querem. Quanto ambos estiverem sob ataque, como esteve Lula, aí serão os “blogs sujos” que farão a desconstrução das mentiras do PIG. Quadro por quadro, como na inesquecível tragédia da bolinha de papel.

As novas mídias, como provou Julian Assange, do WikiLeaks, são os instrumentos verdadeiramente aptos ao exercício das liberdades democráticas. A verdade deixou de ter um dono, a dos aquários. Não basta mais, como fez Brossard, montar um cavalo como quem pretende embretar uma boiada. O elogio da velha imprensa no início dos mandatos é uma forma de engordar o boi para o abate logo ali na primeira distribuição de verbas de publicidade.

Helena e Tarso, ao usarem o termo Imprensa, excluem todas as demais participações cidadãs que trabalham com informação. Demonstram que não estão conectados com os novos tempos. Imprensa é um conceito do século passado. É tudo o que não existe mais. É apenas um velho fantasma, do tipo que vira articulista da Zero Hora. 

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