28 de set de 2015

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"Aventuras de Zé Lotes, repórter da Rede Baita Sol (Por Juremir Machado)"



Zero Hora
O mais novo repórter da Rede Baita Sol, de Palomas, é o Zé Lotes. Recém-contratado para atuar em todos os veículos da empresa, Rádio Gaudéria, Diário Gaudério, TV Gaudéria e jornal Meia-Noite, por falta de luz, Zé Lotes paga mico pelo seu idealismo e pela sua ingenuidade. Sonha com grandes manchetes, “furos” de repercussão internacional e reportagens capazes de derrubar um presidente. Leu tudo sobre os jornalistas do caso Watergate. Zé Lotes é puro entusiasmo. Sente-se um missionário da verdade e da informação. Outro dia, chegou esbaforido à redação e quase gritou “parem as máquinas”.
– Tenho uma bomba – disse.
– Quem bomba é essa? – inquietou-se o chefe.
– Uma mega-bomba.
– Já te disse para evitar superlativos. Objetividade, piá. Que bomba é essa?
– Uma operação…
– Ai, ai, ai. Que operação?
– Propina para pagar menos impostos de grandes empresas.
– Esquece, Zé Lotes. Sepulta.
– Como?
– Sonega.
– Sim, é disso que estou falando, sonegação.
– Esquece. Deleta.
– Mas é verdade!
– Só nega, guri.
Zé Lotes coçou a cabeça, ficou vermelho, gaguejou por segundos intermináveis. Parecia à beira de uma apoplexia. O chefe permaneceu impassível. Limpava uma unha minuciosamente.
– Como fica o nosso compromisso de dizer a verdade?
– Diz uma parte.
– Que parte?
– Dez por cento.
O guri engasgou. Ficou olhando para o chefe como se acabasse de ter perdido a virgindade. Depois de algum tempo, a cor voltou ao seu rosto. Aí ele falou bem baixinho.
– O senhor tem certeza?
– Não me chame de senhor. Sou o Chuck.
– Chuck?
– Não te mostraram na faculdade A montanha dos sete abutres?
– Sim, mostraram, com o Kirk Douglas. Mas o Chuck era um canalha.
– Depende do ponto de vista.
– Sério?
– Como a sonegação.
– Sério mesmo?
– Na Rede Baita Sol, achamos que sonegar é um ato de legítima defesa. Entregar dinheiro para o governo é burrice. O retorno é muito baixo. Precisamos nos defender desse roubo.
– Inclusive sonegar informação, Chuck? – atreveu-se Zé Lotes.
– Chamamos isso de seleção.
Zé Lotes voltou para casa totalmente desasado. Entrou no pequeno apartamento, dividido com o amigo Lava-Jato, frentista num posto de gasolina, arrastando dolorosamente os pés, meio descadeirado, como se estivesse com um pneu furado. Lavo-Jato tomou um susto.
– Até parece que te pegaram por trás, Zé Lotes.
– Foi. Sem lubrificante.

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