14 de out de 2005

VEJA só!

Veja como se faz!
Deu a louca na revista "Veja"?
Pode ser implicância minha, mas estou com a "Veja" entalada na garganta. Com farta lista de serviços prestados ao país, parece que a revista resolveu jogar sua sobriedade pela janela se convertendo em uma louca de Chaillot indócil, que atira para todo o lado e reage com histeria aos fatos que deveria relatar com imparcialidade.
Assino "Veja" há 20 anos, leio a revista de cabo a rabo assim que a recebo e faço parte do grupo que acredita que o governo do PT é um embuste digno da queixa coletiva de 121 milhões de eleitores ao Procon. Mesmo assim, não consigo entender a fúria atual de "Veja". Tome, por exemplo, a capa da semana passada, em que a revista apresentava sete motivos para votar "não" no referendo sobre as armas. Estranha conta, sete. Não existiriam motivos suficientes para arredondar o número para dez? E estranha escolha de motivos. O primeiro deles, de que "os países que proibiram a venda de armas tiveram aumento da criminalidade e da crueldade dos bandidos" não encontra respaldo nos dados fornecidos por países que adotaram políticas de desarmamento, como Japão, Austrália, Holanda e Reino Unido.
Outro motivo apresentado, o de que o desarmamento é "historicamente um dos pilares do totalitarismo", não só tenta vincular de forma sub-reptícia a campanha pelo desarmamento à agenda do PT (sendo que o movimento nasceu na sociedade civil e tomou vulto no governo FHC), como ecoa a ladainha alarmista da direita truculenta.
Um dos argumentos usados por Eurípedes Alcântara, diretor de Redação de "Veja", para explicar a opção da revista pelo "não" foi o de que "um referendo que pergunte ao cidadão se ele quer ter direitos básicos suprimidos não deveria ser proposto jamais. Em sendo, merece apenas uma resposta: não". Ora, se esse é o posicionamento da revista, em vez de oferecer sete motivos para votar "não", não teria sido mais coerente fazer uma capa apontando a inconstitucionalidade do referendo?

"Veja", que se ufana em apontar o dedo para repórteres que recebem iPods de gravadoras, poderia ter sido mais generosa com o leitor ao explicar sua opção pelo "não". Para não deixar dúvidas no ar, por que a revista não nos contou que a empresa à qual pertence paga aluguel de cerca R$ 1 milhão à família Birmann, da construtora homônima, que vem a ser proprietária do prédio que serve de sede da Editora Abril e também, veja só, da CBC, a Companhia Brasileira de Cartuchos?
Folha de São Paulo - 14/10/2005

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