13 de dez de 2005

GESTAPO AMERICANA

13/12/2005
A guerra secreta dos EUA: no rastro da CIA
Desde o 11 de Setembro a CIA exerceu um papel vital na guerra contra o terror. Mas que papel é esse? Operando nas sombras, o serviço secreto americano recebeu amplos poderes do governo Bush, que incluem assassinato, seqüestro e tortura - parte 1

Manfred Ertel, Erich Follath, Hans Hoyng,
Marion Kraske, Georg Mascolo e Jan Puhl



Leia também:


Parte 2 - Cheney fica no lado negro


Parte 3 - Torturados até a morte pela CIA


Parte 4 - Vôos obscuros pela Europa


Parte 5 - Sem mortes nem processos


NYT - Bush mantém oposição a lei antitortura

Sábado, 15 de setembro de 2001, quatro dias depois dos ataques terroristas a Nova York e Washington. O presidente George W. Bush se retira com os assessores mais próximos para Camp David, para escapar do caos da semana e desenvolver os primeiros planos para enfrentar o novo e inédito desafio dos EUA.

À tarde, o então chefe da CIA, George Tenet, distribui uma pasta a todos os participantes da cúpula de crise. Chama-se "Indo à guerra". Dentro estão os primeiros esboços da próxima guerra ao terrorismo. No canto superior esquerdo da pasta há um círculo vermelho dentro do qual está um retrato de Osama bin Laden cortado por uma linha preta.

Tenet quer partir para a ofensiva. E sua lista de prioridades é ambiciosa. Objetivo número 1: destruir a Al Qaeda e fechar as zonas de segurança do grupo terrorista, onde quer que estejam.

Segundo Bob Woodward, em seu livro "Bush at War", essa é uma lista com poderes muito amplos garantidos às autoridades que combatem o terror mundial. Tenet não recua. Ele pede que seus agentes recebam autorização para eliminar a Al Qaeda sempre que a CIA localizar seus membros. Ele quer carta branca para operações clandestinas sem ter de passar pelo longo processo de autorização.

Além disso, os agentes da CIA deveriam voltar a ter autoridade para matar --um poder que foi retirado dos agentes da inteligência americana em 1976 pelo presidente Gerald Ford.

Também está na lista de Tenet um pedido de milhões de dólares para comprar agentes secretos estrangeiros. Especificamente, Tenet achava que agentes do Egito, Jordânia e Argélia poderiam ajudar a CIA a localizar e eliminar a Al Qaeda.

Três dias depois, Bush assina uma diretriz presidencial cujo texto exato só alguns americanos conhecem até hoje. Ponto a ponto, os pedidos feitos pela CIA foram concedidos, e com isso o documento tornou-se o primeiro tiro disparado na guerra mundial ao terrorismo. Bush ordenou que a CIA fosse a primeira no novo front. As agências secretas americanas estavam liberadas.

Quatro anos depois, os serviços de inteligência americanos --e especialmente a CIA (o "carro-chefe do negócio ... aonde você vai se quiser o padrão de ouro", segundo o novo diretor do órgão, Peter Goss)-- tornaram-se uma das armas mais polêmicas no combate ao terror.

O exército mais poderoso da história do mundo tornou-se uma força de ocupação no Iraque, e por sua mera presença atraiu toda uma nova geração de mujahedin; mas a comunidade de inteligência de Bush lutou sua parte da batalha sob o aparente lema: "O fim justifica todos os meios".

Os agentes secretos de Washington, cujo desdém pelas normas legais internacionais até os anos 70 lhes granjeou a reputação de americanos feios, estão de volta ao palco político internacional. Nem todo mundo está feliz em vê-los.

E Bush está usando todas as ferramentas de que dispõe. Avaliado por números e capacidade, o gigantesco aparato do serviço secreto americano parece tão onipotente quanto o dos militares: 15 agências com 200 mil empregados e um orçamento anual de cerca de US$ 40 bilhões. A soma representa mais que o gasto total da maioria dos países com os militares.

Os satélites dessas agências podem ler placas de automóveis do espaço --e a mais nova geração desses satélites espiões avançados é tão sofisticada quanto o Telescópio Espacial Hubble. Mas, em vez de bisbilhotar as profundezas do universo, eles olham para o que acontece aqui na terra.

Todos os dias, analistas desse exército secreto entregam suas descobertas a superiores e, na forma do Briefing Diário Presidencial, ao próprio presidente Bush. É uma espécie de jornal diário supersecreto --com circulação severamente limitada--, com 12 a 30 páginas. É a coisa mais importante que você tem de ler todo dia, disse Bush pai --que foi chefe da CIA por um ano-- a seu filho Bush Jr. quando assumiu o cargo.

Mas a guerra secreta não termina com as agências de espionagem americanas. Da mesma forma, nas sombras --às vezes operando dentro da lei internacional, às vezes fora dela-- estão as forças especiais militares americanas. O secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, as envia em missões ao redor do mundo; elas talvez já estejam, como dizem alguns, operando no interior do Irã, que continua sua busca por armas nucleares.

Ashton Carter, que foi secretário-assistente de Defesa de Bill Clinton, diz que ficaria "surpreso e desapontado" se medidas secretas ainda não tiverem sido tomadas contra o programa de armamentos do Irã.

E, onde o pessoal americano não pode ir, a rede mundial da Agência de Segurança Nacional (NSA) pode bisbilhotar. A NSA habitualmente escuta a ONU em Nova York --o secretário geral da ONU, Kofi Annan, pelo menos por algum tempo, foi um dos alvos principais da agência, segundo James Bamford, um especialista em NSA.

Uma das mais novas armas do arsenal do serviço secreto chama-se "geolocalização". Quando satélites localizam um suspeito através de um sinal de telefone celular, por exemplo, forças especiais ou aviões de guerra podem atacar rapidamente. A tecnologia tornou-se tão precisa que celulares podem ser localizados num raio de um metro.

De fato, a capacidade de localizar um alvo precisamente foi instrumental para se matar o chefe militar da Al Qaeda Mohammed Atif, em sua casa perto de Cabul em novembro de 2001, ou se prender o assessor de bin Laden Abu Subeida no Paquistão. Mas o sistema também comete graves erros. Em 2002 no Afeganistão, por exemplo, bombardeiros mobilizados às pressas despejaram sua carga sobre uma festa de casamento em vez de uma reunião de terroristas.

O chefe da CIA, Goss, que foi agente da CIA durante dez anos antes de entrar na política, incentiva seus agentes a assumir riscos. "E quando der errado eu os apoiarei", ele disse. Goss mandou seus agentes com poderes mortíferos e sacolas cheias de dólares para operações em todo o mundo, nas quais eles também têm autoridade para chamar poder aéreo. Ou podem chamar um Predator --aviões teleguiados armados de foguetes Hellfire controlados a laser.

Gestapo americana

Nas décadas de 80 e 90, as operações secretas em países estrangeiros tornaram-se mais raras, e a análise ganhou ênfase. Mas essa era a velha CIA --uma organização de que a ex-oficial Melissa Boyle zombou dizendo que os tempos de James Bond acabaram. O presidente Bush advertiu diversas vezes os americanos de que o novo inimigo dos EUA é totalmente diferente de todos os anteriores.

Essa advertência representa o nascimento da nova CIA --uma agência que deve causar medo no coração de seus inimigos.

Então, a CIA está a caminho de restabelecer a notoriedade que teve por tanto tempo no Terceiro Mundo? Aquela de um poder secreto e assustador que seqüestrava políticos, comprava tropas mercenárias e derrubava governos à vontade, simplesmente porque Washington não os aprovava?

Pouco depois da fundação do órgão, em 26 de julho de 1947, pelo presidente Harry Truman, a CIA já tinha feito do mundo seu playground. Começou decidindo quem eram os mocinhos e quem eram os bandidos e a punir os maus sob ordens da Casa Branca.

A "firma" tinha licença para matar e a usou durante a guerra fria contra um inimigo soviético que era pelo menos igualmente brutal. Nos anos 60, a CIA desenvolveu uma flecha altamente venenosa que não deveria deixar vestígios durante uma autópsia. Ela também experimentou treinar golfinhos para levar explosivos até um alvo.

Mas essas foram vitórias ocas. Misturados aos sucessos estiveram missões desastrosas no exterior e erros embaraçosos em casa. A combinação levou a CIA a tornar-se mais um peso que uma ajuda. O país ficou horrorizado ao saber que o presidente Richard Nixon usou ex-agentes para a invasão de Watergate; os americanos ficaram decepcionados pelo fato de o governo espionar dezenas de milhares de cidadãos que o criticavam; o termo "Gestapo americana" começou a circular. [Gestapo era a temida polícia da Alemanha de Hitler, que torturou e matou adversários do regime, que durou de 1933 a 1945, e participou do Holocausto, o extermínio de aproximadamente 6 milhões de judeus na Europa.]

O resultado foi uma contenção do Big Brother. Em 1974, entrou em vigor uma lei que exigia que todas as operações clandestinas no exterior fossem aprovadas pelo Congresso. Os serviços de inteligência começaram a se concentrar quase exclusivamente na coleta de dados tecnológicos --e assim ficaram amplamente fora da revolução iraniana.

Num combate do Afeganistão contra a União Soviética, a CIA deixou de avaliar que os mujahedin --generosamente abastecidos com armas e dinheiro americanos-- não apenas eram oponentes fanáticos dos serviços, mas também contrários aos "cruzados" americanos.