13 de ago de 2004

E por que não uma OAB de jornalistas?

Texto de um jornalista, editor gráfico e militante da liberdade de expressão enviado ao jornalista Alberto Dines, dono do Observatório da Imprensa.

Estranho comentário para quem, como vc, tem uma página na Internet denominada Observatória da Imprensa. Vc pinta o Conselho Federal de Jornalismo (Federal, Dines, que é o nome correto desse "filhote bastardo", não Nacional como consta no teu texto) como uma espécie de bicho-papão da sociedade brasileira. Qual o problema dos jornalistas, como trabalhadores organizados, pleitearem uma participação naquilo que vc mesmo chama de "Quarto Poder"? Se a mídia significa poder, é sinal que esse poder existe. E se existe, está na mão de alguém, e - por certo - não é na mão dos jornalistas.
E até onde eu sei, esse poder está concentrado na mão dos empresários da comunicação. Assim, os interesses do povo brasileiro ficam sujeitos às suas ambições, indiossincrasias e dogmatismos, raramente bem-intencionados (grifei essa frase, porque tenho a impressão de tê-la lido em algum lugar). Para vc entender melhor o que significa ambição e poder dos donos da mídia, sugiro-lhe consultar seu antigo colaborador Gilmar Crestani. Ele poderá lhe relatar algumas coisas a respeito do Grupo RBS, só para citar um exemplo.
O patronato "não brinca em serviço"; a ele não "basta dominar" a mídia nacional, ele tem também que, numa manobra claramente manipuladora típica da grande mídia, distorcer a função do CFJ, que pode ser uma ameaça ao monopólio que eles têm nesse Quarto Poder. É curioso, eu diria mais, é sintomático, como a grande mídia silenciou, quando o diploma dos jornalistas foi cassado pela infeliz juíza paulista e como agora essa mesma mídia se move, em bloco, para atacar o CFJ. A Globo deu uma longa matéria sobre liberdade de imprensa e quetais no Jornal Nacional. Imagine vc, a Globo falando em censura e em liberdade de imprensa!
Esse terror que vc tem pela CUT e FENAJ parece um tanto irracional, visto que donos da "verdade absoluta" nós já temos. São nove famílias que controlam a mída impressa e/ou eletrônica no Brasil. Preciso lhe dizer mais algumas coisa? Quem sabe se os trabalhadores organizados, furando esse bloqueio, não tornem essa verdade menos absoluta?
E, por favor, Dines, pare de falar em jornalista imparcial. Isso não existe em lugar nenhum. Vc que o diga, ou já esqueceu das suas desventuras no Jornal do Brasil? E tenho a pretensão de fazer uma última recomendação: passe uma flanela nas lentes desse telescópio, ou seja lá o que vc usa para observar a imprensa brasileira, porque acho que as imagens estão lhe chegando um tanto quanto embaçadas.

Eugênio Neves.

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