27 de mai de 2004

Ainda Rohter e os antigos pecados do "N.Y. Times"

NOVA YORK (EUA) - Um leitor amigo pergunta por que o "New York Times", em vez de punir a leviandade do correspondente Larry Rohter, optou por defendê-lo contra as críticas que recebeu no Brasil. Afinal, o jornal tinha tomado providências exemplares nos casos de Jayson Blair e Rick Bragg - e mais tarde só restou a Howard Raines, editor-executivo, e seu lugar-tenente (editor-gerente), Gerald Boyd, a opção da renúncia.

Mas a trapalhada Blair-Bragg-Raines-Boyd é diferente da lambança de Rohter. Blair, protegido de Raines (tinha ligação com uma parente deste), foi apanhado em flagrante de plágio (na verdade, um amontoado de plágios). Sequer viajava ao local que devia cobrir. Bragg apropriava-se do trabalho de um bagrinho, cujo nome nem recebia crédito como colaborador. E como absolver a dupla de cima, que tinha acobertado tudo?

O pecado de Rohter é outro: faz o que a cúpula quer e isso rende promoção e não demissão. No campo da política externa o "Times" é drástico: repórter que entra em rota de colisão com a linha oficial de Washington, dança. Dançaram Sidney Gruson (1954), Tad Szulc (1961) e David Halberstam (meados dos anos 60) por dizerem verdades incômodas, que irritaram a central de inteligência (CIA) e o governo.

Os bons exemplos esquecidos
Não quero dizer com isso que esses três e outros foram sumariamente demitidos. Gruson cobria a Guatemala às vésperas da invasão planejada pela CIA. A agência de espionagem disse à direção do "Times" que ele era comunista. O "Times" o chamou de volta antes de se consumar a invasão. Talvez desencantado com tal tipo de jornalismo, Gruson optou depois pela área da publicidade, onde se deu bem.

Szulc estava por acaso em Miami e descobriu ali a trama da CIA para invadir Cuba em 1961. Escreveu reportagens que o "Times" minimizou para atender a um pedido pessoal do presidente John Kennedy ao diretor de redação do jornal em Nova York. Tempos depois, Kennedy afirmou: "Se o jornal tivesse cumprido sua missão de informar, em vez de me atender, pouparia esse desastre à nossa política externa".

Szulc ainda ficou algum tempo, depois pediu o boné. Tornou-se autor de livros. Halberstam foi chamado de volta do Vietnã por ser acusado em Washington, com outros correspondentes, de fazer oposição à guerra. Ousava dizer que a situação era desastrosa. Pura verdade. Pagou um preço. Chamado de volta, apesar de um Pulitzer, desencantou-se e aderiu a livros, inclusive o notável "The best and the brightest".

Não são os únicos casos. Existem outros. Seymour Hersh, também ganhador do Pulitzer, devassou o massacre de My Lai. Em 1978 ele me disse, em entrevista na redação do "Times", que tinha o arquivo cheio de coisas que não podia publicar. Saiu depois do jornal e publicou uns 10 livros - inclusive um sobre Henry Kissinger e seu papel no golpe do Chile, onde estava parte do que o "Times" não admitia publicar.

Aquele passado que condena
Rohter, ao contrário, faz o jogo dos donos do poder. Se um Otto Reich qualquer, à frente da política latino-americana, prepara o golpe contra a Venezuela, Rohter está à mão para produzir um perfil calhorda exaltando o golpista Pedro Carmona como "democrata" e "respeitado líder empresarial", e o presidente Hugo Chávez, eleito por maioria esmagadora, como "demagogo pernicioso" com vocação de ditador.

"True believer", ele acredita no governo e no "Times", que tinha o colombiano Juan Forero no local, a servir ao golpe. O perfil de Carmona é cínico porque Rohter o conhecia de muitos carnavais. Um empresário que visitou esse vigarista venezuelano contou-me que seu escritório era a central do golpe, sem disfarce. Inescrupuloso, relatava os planos a quem tivesse saco para ouvi-lo. Só o repórter não sabia?

Rohter também esteve na Colômbia, onde jamais pôs em dúvida a aliança dos EUA com a linha dura militar. Sequer conseguiu saber ali que a mulher do coronel James Hiett, que comandava as operações militares americanas em apoio à guerra contra os rebeldes esquerdistas, usava a mala diplomática da embaixada para enviar pacotes de cocaína a um certo endereço de traficante no Brooklyn de Nova York.

A visão seletiva do correspondente
Rohter não vê a realidade inconveniente, só enxerga o que interessa, por exemplo, a um John Bolton - subsecretário de Estado para controle de armas, o mesmo que derrubou o brasileiro José Busttani da OPAQ e hoje sonha desmoralizar Lula (o "Times" não disse que bebe demais?) e acusá-lo de produzir armas nucleares no Brasil (não foi o que também escreveu Rohter em janeiro?).

O jornalista que chamou de "democrata" o aventureiro Carmona, sem votos mas com apoio em Washington, também se encanta no Brasil com o sem-votos José Serra e o PSDB, partido do estelionato eleitoral de 1998. Mas desconfia de Lula, eleito com 60% dos votos, e o retrata no "Times" como um bêbado com o dedo no botão nuclear, para fazer nos EUA o que este país fez em Hiroshima e Nagasaki.

O desvio de Rohter tem sido explicado nos EUA. Segundo escreveu Cynthia Cotts (em agosto de 2002, no "Village Voice"), ele nunca questionou a linha dos EUA na Colômbia, nem depois que o "Dallas Morning News" revelou que o Plan Colombia usava as firmas DynCorp e Military Professional Resources - fornecedoras de mercenários, conforme confirmou outro jornal, o "Financial Times". Só Rohter não vê?
ARGEMIRO FERREIRA, TRIBU
NA DA IMPRENSA, 27/05/2004

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