28 de dez de 2010

Chimarrão

che-haedo

Sou um “viciado” em chimarrão. Herdei este hábito do meu pai. Na minha infância, acordava com meu velho acendendo o fogão a lenha. No rádio Pionner, que mandei converter de pilha para luz elétrica  e ainda me acompanha, ouvia Darcy Fagundes e Teixeirinha.

O mate, como chamam os de fala castelhana, é mais do que um chá. É o elo quando se está em grupo. Vira interlocutor quando estamos sozinhos. É com ele que faço minhas leituras matinais. E meus rabiscos. É a saudade da terra quando se está longe. E a lembrança dos amigos quando viajamos sozinhos.

Na foto, Che Guevara numa charla com o então Presidente do Uruguai, no início da década de 60. Alheios ao frenesi que os rodeia, mostram toda felicidade de estarem acompanhados dos dois melhores amigos do homem. O cão e o mate.

Cantado em prosa e verso, em português e espanhol, o chimarrão também já foi considerado por um desses franceses metidos a tucanos, como uma maneira civilizada de um cuspir na boca do outro. Coitado. Ele nunca deve provado o gosto de um beijo.

 

 

Autoria: Glaucus Saraiva

Amargo doce que eu sorvo
Num beijo em lábios de prata.
Tens o perfume da mata
Molhada pelo sereno.
E a cuia, seio moreno,
Que passa de mão em mão
Traduz, no meu chimarrão,
Em sua simplicidade,
A velha hospitalidade
Da gente do meu rincão.
Trazes à minha lembrança,
Neste teu sabor selvagem,
A mística beberagem,
Do feiticeiro charrua,
E o perfil da lança nua,
Encravada na coxilha,
Apontando firme a trilha,
Por onde rolou a história,
Empoeirada de glórias,
De tradição farroupilha.
Em teus últimos arrancos,
Ao ronco do teu findar,
Ouço um potro a corcovear,
Na imensidão deste pampa,
E em minha mente se estampa,
Reboando nos confins ,
A voz febril dos clarins,
Repinicando: "Avançar"!
E então eu fico a pensar,
Apertando o lábio, assim,
Que o amargo está no fim,
E a seiva forte que eu sinto,
É o sangue de trinta e cinco,
Que volta verde pra mim.

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