13 de nov de 2010

Tânia, obrigado pela visita!

TaniaJFaillaceQue haja fã clube, tudo bem. Mas qual a idade do Gilmar Crestani, que experiência tem ele do nível das escolas brasileiras a partir da reforma de 1970? O ensino brasileiro é uma cacaca faz mais de 40 anos. Aliás, a picaretagem dos cursinhos se inseriu no quadro justamente por isso.
E isso não depende de um governo A ou B, depende de um modelo de educação que nos foi imposto a partir dos EUA, um país dotado de uma escola de baixíssimo nível.
Desde que o ensino se tornou obrigatório para todas as classes sociais, as classes hegemônicas quebraram a cabeça em desenvolver estratégias para impedir as classes subalternas, do acesso a conhecimentos úteis para contestá-las e disputar-lhes a hegemonia de forma organizada e eficiente.
No final dos 60, após as várias revoltas dos jovens, essa necessidade se tornou imperativa. Coincidiram a formação da Trilateral (que ainda tinha o Japão como um dos vértices) e o desmonte progressivo da consciência jovem, com a drogadição programada, e a intencional deliberada dos sistemas educacionais em todo o mundo ocidental.
Em 1970, no Brasil, impôs-se um modelo de alfabetização de cunho fonético, que formou o mais extenso plantel de tiriricas escolarizados que se conheceu.Também foram retiradas matérias importantes dos currículos oficiais,como História, Filosofia, Latim, Geografia, reduzidas a um mínimo referencial, e cortadas partes e trechos problemáticos.
Isso redundou em que os textos de muitos cidadãos com menos de 50 anos apresentam erros assombrosos de ortografia, redação e sintaxe, e que seu conhecimento da trajetória humana no mundo – a nível social, político e até econômico – seja muito discutível, mesmo entre bacharéis e licenciados.Entraram nessa vala comum, escolas públicas e privadas.
E se há uma pré-escola deficiente, um Ensino Fundamental extremamente ruim, como é que se pretende que II e III Graus sejam melhores? Os alunos não têm base, não aprenderam noções básicas, não sabem estudar e pesquisar por conta própria, foram educados pela Xuxa em sua primeira infância, e agora escrevem no estilo Bill Gates – msn.
Por outro lado, nesses 40 anos, formou-se mais de uma geração de professores dentro do sistema. Como esperar que eles obrem milagres?
E enquanto não se fizer uma faxina em TODO O SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO, revirando e desmontando os facinorosos Conselhos de Educação que existem nos vários níveis, não haverá solução.
A escola hoje é antro de corrupção, bullying (violência ritual), sexo promíscuo, desrespeito, droga, tiroteios, estupros, assassinatos, roubos, agressões a professores… tanto na área pública como na privada. Os professores não têm mais direitos, não podem exigir respeito e disciplina, ou sequer bom desempenho escolar dos alunos – são eles os castigados, porque é proibido inibir os excessos dos menores, já que isso “afeta sua auto-estima” na ótica do “politicamente correto”.
Olha, outra coisa necessária, é acabar com essa obsessão bacharelesca. Qualquer dia se exige diploma de III Grau para a lavagem de carros, e quem não tem, estará condenado à mendicância.
O Ensino Fundamental deveria ser competente o bastante para preparar o jovem para a vida adulta, tanto a nível laboral como a nível de cidadania.
Os estudos superiores deveriam ser encarados como uma especificidade de algumas profissões que exigem conhecimentos aprofundados das matérias, ou como extensão cultural de qualquer pessoa (seria a universidade aberta.Nunca deveria servir como trampolim de ascensão social. Isso contribui para a mercantilização do ensino, e a proliferação de cursos e faculdades inúteis, que só servem para reservar mercado de trabalho para os filhos da classe média, e perpetuam a desigualdade entre o trabalho manual/braçal, e o trabalho com diploma.
Quanto ao ENEM equivale a band-aid em câncer.
Também não há porque dramatizar o caso das provas, quando, anualmente, em quase todos os vestibulares de quase todas as escolas acontecem fatos parecidos. O furo é mais embaixo.

Tania Jamardo Faillace - taniajfaillace@terra.com.br
jornalista e escritora de Porto Alegre – RS

 

Tânia, obrigado pela visita!

Não quero ser deselegante com a grande escritora gaúcha que me visita. Sei também que possui posições políticas de vanguarda. Já a li quando cursei Letras, na UFRGS. Na época, anos 80, tive o privilégio de ter verdadeiros professores. Dentre outros, Celso Pedro Luft, José Hildebrando Dacanal, Cláudio Moreno, Maria da Glória Bordini, Mário Klassmann. Se não melhorei o nível, não foi por falta de bons professores. Claro, nenhum era pop como o Luis Augusto Fischer.

A minha experiência pedagógica, mesmo tendo cursado Latim e Filosofia no segundo grau, com os padres franciscanos, foi praticamente nula. Tive curta passagem pelo Colégio Anchieta, no início dos anos 90. Depois segui conselho do prof. Dacanal e fiz concurso, até para ajudar minha família de pequenos agricultores. Não sou nem nunca fui um pensador da educação brasileira, e confesso minha ignorância a respeito da militância educacional da escritora.

Mas ouso discordar pelo menos num ponto. Para mim, a educação pública, passa, sim, pelos governos. Embora não seja esta minha preocupação, lembro que o PDV nos governos Britto e FHC puseram para fora das salas de aula os melhores professores. O professor Cardoso foi ainda mais cruel, porque, com a reforma da previdência, ameaçou também via aposentadoria. O êxodo de professores federais foi considerável. Na contramão, o Governo Olívio, no RS, aumentou a autoestima, e a criação da UERGS se insere nessa preocupação. Senão pelo resto, o gesto é suficientemente significativo da diferença de enfoque no que diz respeito à educação. Já o governo Lula, que não foi sociólogo nem professor, fez grandes investimentos na educação pública, com criação de Universidades e concursos públicos. Também melhorou o nível salarial. Portanto, discordo da Tânia neste quesito. Há governos e governos, e, repito, a educação tem passado, sim, pelos nossos governos. Afinal, não é com escolas de lata que se mostra preocupação com a educação.

Política Educacional

Tens razão, minha preocupação não está na política educacional, mas na Política. Mais precisamente, na manipulação da e pela mídia. No caso, a RBS. Infelizmente a Tânia não se posicionou quanto ao papel deseducador, para não dizer, manipulador, da RBS na educação dos jovens. Que apontei e provei.

Tânia, como pessoa culta e bem informada que é, também sabe que a RBS usa e abusa da cultura da trapaça.  Se o nível educacional já não é bom, imagina tendo por companhia um grupo de mídia que, como demonstrou pesquisa de Pedrinho Guareschi, atinge 80% dos gaúchos e age de forma tão mal educada. Minha preocupação está restrita ao papel manipulador da mídia que usa jovens como massa de manobra. Como diria aquele velho barbudo, penso globalmente mas ajo localmente.

Fico agradecido pela visita, principalmente porque estamos na época da Feira do Livro de Porto Alegre…

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