7 de jun de 2004

Rohter e Judith Miller, farinha do mesmo saco

Argemiro Ferreira (Tribuna da Imprensa, 31/05/2004) - Mesmo depois do espetáculo de histeria patrioteira que comprometeu a totalidade da grande mídia dos EUA depois do 11 de setembro, ainda continuei entre aqueles que respeitavam o "New York Times", como o "Washington Post", o "Los Angeles Times" e mais um ou outro, pela tentativa nem sempre bem sucedida de manter o padrão elevado de seu jornalismo. Hoje, nem tanto.

Os escândalos Jayson Blair e Rick Bragg expuseram um dos pecados maiores do "Times" e da corrente principal da mídia - a arrogância. Daí porque a autocrítica e o pedido de desculpas foram insuficientes e chegaram muito tarde. O jornalão auto-suficiente teve de reconhecer o óbvio (a culpa do escalão superior, Howard Raines e Gerald Boyd) e afinal criou o que repudiava: o "ombudsman", com outro nome.

O novo capítulo da lambança, com o tardio reconhecimento de que o "Times" foi usado para disseminar mentiras destinadas a favorecer a obsessão oficial de fabricar a guerra do Iraque, é ainda mais grave. Do alto de sua arrogância o jornal deixou de contar a história direito. Tentou culpar os já punidos do caso Blair-Bragg e ainda repartir seus erros com os de outros impérios de mídia (culpados sim, mas de outros).

Assumindo as mentiras de Bush
A despersonalização da autocrítica foi mero truque para ocultar parte da verdade. O texto tardio dia 26, assinado pelos "editores", não cita um único profissional responsável. O "Times" sabe que há casos bem específicos e que os escorregões foram denunciados repetidamente - e defendidos com arrogância, da mesma forma como se fez na lambança recente do correspondente no Brasil, Larry Rohter.

Antes da guerra do Iraque, cheguei a contar nesta coluna o episódio da cobertura de um protesto de rua em Washington. O "Times" ridicularizou os manifestantes com uma cobertura desonesta, a ponto de dizer na abertura que os organizadores, desapontados, reconheceram que havia menos de 10 mil pessoas. Mas a polícia da capital calculara 100 mil, acrescentando ter sido o maior protesto desde o Vietnã.

Para os organizadores, o ato tinha sido um sucesso acima de todas as previsões, com 200 mil manifestantes. Bombardeado por número devastador de reclamações em cartas à redação e após dura crítica da organização Fair, o "Times" refez tudo: uma semana depois publicou outra cobertura do mesmo fato e sequer explicou ao leitor a razão para algo tão insólito, digno de um registro na história do jornalismo.

Ainda mais chocante foi a jornalista Judith Miller, ganhadora do prêmio Pulitzer (como Bragg), assumir depois, em textos de primeira página, as mentiras do governo Bush sobre armas de destruição em massa (ADM) do Iraque e ver o escalão superior do jornal vir em socorro dela, como fez com Rohter, quando o que escreveu foi desafiado publicamente.

A hora das desculpas esfarrapadas
Só que aquelas supostas verdades definitivas, como o pretenso jornalismo íntegro, não passavam de fraude e manipulação. Miller prestara-se a veicular o que lhe era dito por fontes consideradas pelo bom senso (e ainda pelo Departamento de Estado e pela CIA) indignas de um mínimo de crédito, o lobista Ahmad Chalabi e sua gente. E obtinha confirmação da mentirada irresponsável no Pentágono, que apadrinhava Chalabi.

Antes mesmo de ser publicamente denunciada pela leviandade jornalística, Miller foi contestada pelo próprio chefe da sucursal do "Times" em Bagdá, John Burns. E respondeu a ele, em email, que durante 10 anos usou informações de Chalabi, que lhe fornecera "a maioria de minhas reportagens exclusivas de primeira página". Até que em dezembro de 2003 publicação séria e respeitada devassou o trabalho dela.

A primorosa análise de Michael Massing na "New York Review of Books" (título: "Now They Tell Us") não se referia só ao "Times", mas destacou o escandaloso caso Miller - o que levou leitores a cobrar do ombudsman (perdão, "editor público") Dan Okrent. Ele entrou em contato com a jornalista e Miller limitou-se a enviar meia dúzia de linhas, com desculpas esfarrapadas, ao NYRB.

A arrogância dela e da direção do jornal prevaleceu até a casa de Chalabi, suspeito de espionagem a favor do Irã, ser vasculhada em Bagdá. Isso levou o "Times" a criticar o governo (no editorial "Friends Like This", a 21 de maio) por ter voluntariamente comprado as informações falsas de Chalabi, que recebia US$340 mil por mês do contribuinte. Em seguida o jornal se lembrou: devia explicação aos leitores.

Órgão de propaganda do governo?
O insuficiente e tardio mea culpa, dia 26, exalou arrogância. Embora a edição online do jornalão tenha citado (com links e tudo) muitas matérias duvidosas, de 2001 a 2004, o texto "dos editores" colocou-se acima de tudo, com inexplicável ar de superioridade. E havia casos tão inacreditáveis como aquele no qual Miller sequer tinha falado com uma suposta fonte: simplesmente a pessoa lhe fora apontada de longe.

Pelo que se sabe, Miller, os outros jornalistas e seus superiores continuam firmes no emprego (Raines e Boyd saíram, mas pelo escândalo anterior). Ao menos os leitores perceberam o absurdo. "Insuficiente embaraço", disse um em carta saída no dia seguinte. "Conscientemente ou não, o jornal se deixou usar como órgão de propaganda para o governo bater o tambor e produzir sua guerra no Iraque".

Outro leitor declarou-se desapontado por "vocês terem esperado Chalabi cair em desgraça para reconhecer a natureza duvidosa das informações dele e o excesso de dependência dos repórteres naquilo que dizia". Mais lúcida ainda foi a leitora Anne Travers: "A autocrítica mostra como imprensa e Congresso nos falharam quando o governo começou a rufar os tambores da guerra há dois anos".

Vale a pena juntar Rohter, Miller e o resto. A tentação de se deixar manipular, de fazer o que o governo quer, é sempre grande, por isso mestre I. F. Stone alertava: "Seja cético, o governo mente". Quando Rohter rufa tambores na Venezuela, chamando golpista de democrata e presidente eleito de ditador, e no Brasil, sobre supostas armas nucleares e Lula, é bom a gente se preparar para o pior - até nova fraude de ADM com as bênçãos do "Times".

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